Portugal em 1976, Brasil
em 1988 e Angola em 2010 aprovaram as Constituições
* Fernando Botto
No dia 4 de fevereiro de
1961, em Luanda, um grupo de homens e mulheres empunhou paus, pedras
e catanas e partiu para a libertação de presos
políticos que haviam sido capturados pela temida PIDE, polícia
política portuguesa, por oferecerem risco às relações
coloniais. Havia boatos dando conta de uma possível execução
dos pretensos revolucionários, que estavam sendo mantidos na
Casa de Reclusão e na cadeia de São Paulo.
A ação
desencadeou uma onda de instabilidade colonial entre Portugal e
outras colônias, notadamente Guiné-Bissau e Moçambique,
antes chamadas pelos portugueses de “províncias
ultramarinas”. As guerras das libertações coloniais
consumiram muitas vidas e vultuosos recursos portugueses, imbróglio
que só teve desfecho com a Revolução dos Cravos,
em 25 de abril de 1974. A queda da ditadura herdada de Salazar
ocorreu sem derramamento de sangue e, curiosamente, muitos militares
foram vistos comemorando a vitória com cravos nas pontas de
seus fuzis, em meio ao furor popular. Dois anos depois, estava
aprovada a Constituição portuguesa.
Em Angola, a guerra
colonial teve seu desfecho no dia 11 de novembro de 1975, data que
marcou a tão sonhada independência. O Brasil manifestou
um importante apoio por se apresentar como o primeiro país do
mundo a reconhecer a soberania de Angola. A independência foi
uma conquista heróica que não veio acompanhada da paz
esperada pelos angolanos. A disputa pelo controle do país foi
travada entre o MPLA (Movimento Popular de Libertação
de Angola), FNLA (Frente Nacional de Libertação de
Angola) e a Unita (União Nacional para a Independência
Total de Angola). A guerra civil teve uma pequena trégua,
quando a ONU tentou, ingloriamente, organizar eleições
democráticas em 1992. Porém, sem a aceitação
unânime do resultado, a guerra recomeçou e só
teve fim com a morte do líder da UNITA, Jonas Savimbi. Tal
fato ensejou a assinatura imediata do protocolo de paz, em 2002.
Desde então,
Angola apresentou crescimento da economia de dois dígitos, até
2008, além de passar a uma produção de petróleo
digna de receber o importante convite para compor a poderosa Opep. Em
meio a essa súbita ascensão, permaneceram os desafios
de reconstruir um país arrasado por mais de trinta anos de
guerras. As eleições legislativas foram realizadas em
2008 e os deputados constituintes aprovaram a Constituição
da República de Angola promulgada pelo presidente José
Eduardo dos Santos no dia 5 de fevereiro de 2010.
O Brasil, independente
desde 1822, teve sua última Constituição
promulgada em 1988, marcando o início da nova República
e soltando o heróico brado retumbante da democracia canarinha.
Deixamos para trás a ditadura, consignamos na nossa Magna
Carta os direitos fundamentais à vida, liberdade, igualdade,
segurança e propriedade como cláusula pétrea,
“imexível” como dizia o ex-ministro Magri.
Chegou a vez de Angola
viver esta fase, de comemorar os direitos consagrados numa
Constituição escrita, debatida e aprovada, resultado da
superação de um desgastante período opressivo
vivido desde os primeiros golpes de catanas datados de 1961. Tanto o
Brasil, em 1988, quanto Portugal, em 1976, experimentaram o gostinho
de aprovar Constituições que marcaram transições
históricas para a democracia, materializadas em legislações
e políticas públicas subsequentes. O fim da luta armada
angolana trouxe, além da paz, o embrião de uma nova
fase de um país em reconstrução, que tem tudo
para se consolidar como um efetivo Estado Democrático de
Direito.
* Fernando Botto é
advogado, escritor, especialista em Direito e Negócios
Internacionais (UFSC) e mestre em educação (PUCPR).
Consultor de negócios em Angola. E-mail: fbotto@yahoo.com |